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A pergunta “Quando foi que você se converteu?” sempre foi um enigma para mim.
Entreguei minha vida a Jesus quando era criança. Não tenho sequer certeza da idade que eu tinha quando o fiz pela primeira vez.
Conforme crescemos, passamos a conhecer novas coisas. E o que acontece quando se ganha muito conhecimento natural e pouco espiritual? Indo mais fundo, o que acontece quando conhecemos um monte de coisa, e não conhecemos Deus?
Com o passar dos anos, comecei a achar difícil me considerar um cristão. Eu tinha pouco do caráter de Deus em mim. E isso me levava a um sentimento de que eu nunca tinha nascido de novo. Talvez, todo crente passe por isso.
Num determinado momento, decidi que precisava ter certeza de que eu era mais do que um evangélico. Eu decidi que tinha que ser um filho de Deus, um amigo d’Ele. Então comecei a buscar por arrependimento genuíno, conversão, e mais a Deus.
Faz só quatro anos que eu sinto que estou caminhando, de fato, como um cristão. Foi quando passei a ter a sensação de que estou fazendo a minha parte pela minha salvação.
Mas sabe de uma coisa? Quando comecei a me tornar alguém melhor para Ele, pensei que não iria mais me sentir insatisfeito com o meu caráter. E isso não aconteceu. (Graças a Deus!)
Já me perturbei muitas vezes por isso. Ouvi outros milhares de vezes que eu não fui salvo. Mas a razão de todo este texto é que Deus está me ajudando a entender aquela linda “tristeza segundo Deus” de que falei em outro texto.
Hoje, eu sei que conhecer o Senhor sempre me deixará inconformado com meu caráter. Se isso não acontecer, eu não conheci a Deus de fato. Ou, no mínimo, estacionei em algum nível da revelação que Ele me deu.
Até que Cristo volte, temos uma natureza carnal caída. Nosso espírito foi feito de novo; mas todo o resto, sentimentos, pensamentos, desejos… Tudo isso está perdido sem o constante auxílio da graça de Deus.
Quanto mais nos aproximarmos da pessoa de Deus e Sua santidade, mais inconformados ficaremos com a nossa corrupção. E quanto mais luz for lançada no imenso porão da minha alma, mais claramente verei as coisas entulhadas ali.
Não faz só quatro anos que nasci de novo. Realmente, faz mais de quinze. E não faz só quatro anos que me converti. Eu venho me convertendo durante minha vida toda! E, talvez, o mesmo se aplique à sua realidade.
Você deve saber quando entregou sua vida a Jesus. Mas, conforme você cresce na fé, não sente uma enorme insatisfação quanto à sua natureza, de vez em quando?
Sabe, isso nem sempre vem de uma acusação maligna. Pode ser que a própria nova natureza em você confronte o seu cristianismo, já que o Espírito Santo habita em você e não gosta do que está errado em nós.
Deus me ajudou a vencer os pecados A, B e C. Mas hoje, quando vejo que o pecado D ainda está presente no meu dia-a-dia, eu o odeio muito mais do que odiava a presença de todo o alfabeto! Isso porque a santidade de Deus que cresce em nós será uma força cada vez mais dura contra o pecado.
Mesmo os nascidos de novo precisam viver em arrependimento. A verdade é que a conversão não é uma experiência de um dia. É a experiência de uma vida.
[Photo: Jason Lee - www.flickr.com/jwlphotography]
Amor (parte final)
A aparência e os modos do anjo pareciam refletir virtudes de outra pessoa. Era fácil acreditar que Deus existia.
– Então, todos são maus. Sei aonde você quer chegar. Mas responda, meu amigo. Sobre toda a face da Terra, quanta gente você viu fazer as mesmas coisas que eu?
– Você confunde espíritos e atitudes. Você não é o que faz.
Lendo em seu olhar um pedido para que se aprofundasse, o anjo continuou.
– Vocês, humanos, se baseiam em atitudes visíveis para julgar quem é bom ou mau. Mas o coração da pessoa mais bondosa pode cobiçar uma depravação inimaginável secretamente.
– Que seja. Mas há uma grande distância entre desejar o mal e praticá-lo.
– E você vai dizer que o fator determinante entre essas duas possibilidades é a nobreza de espírito de cada pessoa.
– Sim, claro!
– Não.
O homem poderia introduzir uma série de argumentos. Mas a convicção nos olhos do anjo, que sorria humildemente, lhe transmitia segurança de que não poderia vencer a discussão. Abaixando o tom de voz, tentou uma última resolução.
– É impossível dizer que pessoas boas e más sejam iguais.
– Todas as pessoas são iguais. São todas más. Apenas tomam decisões diferentes.
– Pois bem! Se são todos iguais, como alguns podem optar pelo bem? Haverá algo dentro deles que os induza a isso. Algo que não tenho, cuja ausência me torna pior!
O anjo, então, se ajoelhou sobre uma perna. Aproximando-se assim, prosseguiu.
– Finalmente disse algo sábio. Falta, mesmo, algo em você. A única coisa que conduz as pessoas à bondade. É o Amor.
O homem não respondeu. Se abrisse a boca, cairia em prantos novamente.
O anjo pousou a mão sobre um dos ombros do homem. Uma impressionante energia sobrenatural invadiu seu interior. Brilhando mais que antes, o anjo olhou ainda mais fundo em seus olhos.
– Você quer ser bom? Quer amar? Filho do homem, tudo que te falta te está disposto. Você quer ser amado?
Rios correram dos olhos do homem. E a última declaração do anjo foi esta:
– Você conhece a história. Jesus morreu para te dar uma nova vida. Deus te ama muito.
O homem irrompeu num choro profundo. Lançou-se debruçado nos braços do anjo. Este, por sua vez, brilhou mais e mais, até desaparecer.
Levou um bom tempo até que o homem chorasse todo o seu arrependimento, toda a sua dor e toda a sua gratidão por aquele imenso amor de Deus que o inundava. Passou alguns minutos jogado no chão, rendendo-se a Deus e agradecendo pela nova chance que recebia. Já nem lembrava mais do terror que estava vivendo antes daquilo tudo.
Quando finalmente conseguiu se levantar, enquanto enxugava o rosto das lágrimas, alguém bateu à porta de seu escritório. Com a devida permissão, um jovem fardado, seu braço direito, entrou à sala para apresentar relatório.
– As forças inimigas já ultrapassaram a maior parte das nossas resistências e continuam avançando em nossa direção. Receio que não nos reste alternativa a não ser a fuga, senhor. Quanto aos judeus, preparei soldados para executarem todos antes de partirmos. Estão à espera de um comando.
Pela primeira vez, o soldado foi chamado por seu superior pelo nome.
– Nenhum prisioneiro vai morrer hoje, Engelbert. Apenas ponha todos de volta em seus dormitórios. Deixe que as tropas inimigas os libertem.
O rapaz ficou parado, atônito. Depois de um gesto que o homem lhe fez com a cabeça, disse “Sim, senhor” e saiu da sala.
O homem sentou-se em sua cadeira, de frente para a grande janela atrás de sua mesa, olhando para o céu.
Naquele dia, muitos fugiram. Mas ele ficou ali, esperando por sua captura e prisão. Tinha medo. Mas nunca havia sentido tanta paz.
[Photo: Sajjad Hussain - AFP - Getty Images]
Amor (parte 2)
Permitiu-se envolver cada vez mais por aquela paz, tomar consciência do que estava acontecendo. Quanto mais ele fitava o anjo, mais real parecia aquele momento.
- Então… Isso realmente está acontecendo?
O anjo sorriu. Com uma voz poderosa e impressionantemente gentil, respondeu.
- O amor de Deus é mais real do que qualquer coisa que você já percebeu.
Aquelas palavras traziam um consolo mais forte que toda a aflição que ele experimentara durante a vida toda. Ao mesmo tempo, elas o faziam sentir-se sujo, baixo, imoral, perdido.
- Por favor, não faça isso. Não me fale de amor.
- E de que mais eu poderia falar? - o anjo respondeu.
- Diga-me por que você veio. Diga-me qual é minha sentença.
- Sentença…? Não foi para te julgar que Deus me enviou a você.
Nos olhos e lábios do homem, uma expressão de deboche se misturou ao medo e à vergonha.
- Se Ele realmente existe… Se tudo é mesmo como a Bíblia diz, eu sei que o inferno me espera. É por isso que você veio? Para me levar ao sofrimento eterno? Leve-me! Não pode ser pior do que o que eu vou enfrentar se permanecer aqui.
O semblante do anjo mudou. Falou pela primeira vez com um tom frio e pesado.
- Acredite. É muito pior. Você não pode imaginar.
Parecia haver uma solução para tudo oculta no rosto do anjo. Era a única razão para o homem não ficar ainda mais desesperado depois da última declaração que ouvira.
Retomando seu tom afetuoso, o anjo deu dois passos à frente, para dizer o que o homem nunca sonharia ouvir; as palavras que o aterrariam.
- Deus ama você.
A frase o atingiu como se pudesse cortar sua alma fazendo-a derramar todos os seus segredos numa só corrente. Lágrimas correram sem fim.
- Por que você está me dizendo isso? Por que Deus me amaria? Por acaso Ele é cego? Não se lembra do que eu fiz?
O anjo respirou fundo, como se absorvesse a dor que jorrava daquela alma. Com ternura, continuou.
- Filho do homem. É certo que o Senhor odeia a iniquidade. A sua iniquidade. Mas é certo que o amor jamais acaba. Deus não olha apenas para as suas atitudes. Ele olha para dentro de você.
- E isso deveria ser algum consolo? É de dentro de mim que provém minha maldade! Minhas atitudes refletem quem eu sou. Um monstro! Sou irremediável! Sou algo pior do que um humano, pior que um animal!
- Você está certo e errado. Certo, ao pensar que é mau. Errado, ao pensar que sua maldade o torna inferior à raça humana. Na verdade, o fato de você ser humano é a causa de sua maldade.
Amor (parte 1)
Suando. Desesperado.
Tinha se isolado em seu escritório frio. Só os últimos raios de sol do dia iluminavam parcamente os móveis de madeira daquela sala. Ele buscava raciocinar, contra todas as vozes em sua cabeça, que gritavam, que o perturbavam.
Elas sempre estiveram ali, durante os últimos anos. Sempre o fizeram sentir sufocado. Nesse dia, porém, seu ataque era muito mais ferrenho, muito mais cruel e esmagador.
A culpa pesava sobre os seus ombros como o mundo todo. Tudo o que ele havia construído estava desmoronando.
Num momento de confusão nunca antes experimentada, as vozes que sempre o guiaram se confundiam. Enquanto umas gritavam em louvor e aprovação, outras o vituperavam e humilhavam. A mensagem paradoxal era que ele tinha feito tudo correto, tinha sido excepcional no cumprimento da missão encaminhada por suas vozes guias. Por isso mesmo, elas o consideravam um fracassado.
Perdido no meio de um tufão emocional, ele queria sumir. Queria que o mundo parasse, que tudo fizesse silêncio. No auge de sua loucura, e vendo que a tempestade só piorava, quis se matar.
Ajoelhou-se no meio da sala, esgotando todas as possibilidades de fuga em que conseguia pensar. Diante do revólver que jazia no chão, apertava o rosto com as mãos. A morte era iminente. Ele podia sentir. Seria pelas mãos de seus inimigos, por aqueles que falavam em sua mente ou por suas próprias mãos.
Foi quando uma luz brilhou dentro da sala. Mesmo de olhos fechados, ele pôde percebê-la. Foi como se um vento tivesse soprado de leve e arrastado toda a sua guerra psicológica para longe. O silêncio tão desejado tinha surgido como que por resposta a uma oração. E a luz, que parecia traspassar sua pele, trazia paz. Receoso, decidiu abrir os olhos aos poucos.
Diante dele, esperando pacientemente, um anjo. Forte, de semblante doce, tinha o olhar de um amigo. Ele iluminava tudo num raio de um metro, como um vaga-lume num jardim banhado pelo orvalho.
A respiração do homem foi se estabilizando enquanto ele encarava, incrédulo, o anjo.
“Então, é isso? Cheguei ao ápice de minha loucura?”, pensava. Quando abriu a boca para verbalizar sua dúvida, antes que conseguisse produzir algum som, o anjo falou.
- Não tenha medo. Eu vim te ajudar.



