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a grande luz dourada
Filipe estava sentado à mesa do refeitório.
Fazia tempo que tinha terminado de almoçar. Mas não queria se levantar. Não queria se mover. Ficaria horas ali, meditando em Deus.
Embora houvesse muita gente comendo e conversando naquele lugar, os fones de ouvido o ajudavam a se desligar de tudo, e a sentir-se a sós com o Espírito Santo.
Ele olhou para o lado esquerdo. Perto dele, no final da sala, havia uma grande janela aberta. Tudo o que se via através dela era a vasta folhagem de uma árvore. Entrando por ela, fachos de luz do sol deitavam sobre o chão suavemente. Iluminavam a dança da poeira que viera das flores do lado de fora; contornavam a rebuscada perna da mesa que ficava de frente para a janela.
Filipe viu Deus naquela cena. Algo tão bonito não teria vindo de outra pessoa.
Era um dia nublado. O rapaz não podia ver, mas, enquanto ele observava aquela revelação de Deus, do lado de fora, o céu estava mudando.
O dia se arrastava sob o peso de nuvens escuras. Até que, sem aviso e sem vento, elas começaram a se revolver, abrindo espaço para o sol.
O fenômeno não passou despercebido para ninguém que estava na rua. Os carros diminuíam a velocidade, os caminhantes paravam de caminhar. Todos os olhos, de todas as idades, se voltavam para o alto.
A abertura das nuvens não revelava o céu que todos conheciam. A escuridão se afastava para dar caminho a uma luz dourada que enchia os corações de todos e derretia suas almas.
Dentro do refeitório, Filipe viu que a incidência do Sol sobre o chão aumentou. Isso lhe deu a sensação de que Deus o estava ouvindo cantar e que, agora, sorria para ele.
Uma lágrima de amor correu pelo rosto do garoto, em sincronia com o último acorde da canção que ele ouvia.
Filipe suspirou em agradecimento a Deus.
Nesse momento, uma rajada de vento o tocou; só a ele, e secou imediatamente a lágrima que acabara de se derramar. Subitamente, o rapaz sentiu-se leve, com a impressão de que podia flutuar. O vento que viera sobre seu rosto, agora, ventava sobre todo o seu corpo, cada vez mais forte.
Aquela sensação totalmente nova deixou o rapaz atônito. Rapidamente, ele olhou em volta para se certificar da realidade.
Ao redor dele, tudo estava paralisado. Ninguém piscava. Ninguém respirava.
Havia silêncio absoluto. Até o celular de Filipe tinha parado de tocar música. A atenção dele, então, foi tomada pelo primeiro som que entrou pela janela. Duas notas; uma curta, seguida de uma longa. Parecia um instrumento de sopro. Agudo, mas aveludado, encorpado e, na definição que Filipe daria, celestial.
Aquele som fez o garoto perder a noção do que conhecia como mundo real. A mesa diante dele, as cadeiras e pessoas à sua volta, a roupa que vestia, o ambiente onde se encontrava; tudo parecia falso, abstrato, pobre, fútil. Tudo parecia mentira, menos o som musical, que soava como se pronunciasse o nome de Filipe.
Uma alegria inexplicável tomou conta do rapaz, que passou os olhos sobre si mesmo tentando entender o que estava acontecendo. Foi quando percebeu que algo estava suspendendo o seu corpo.
Totalmente rendido, entre o teto e o chão, Filipe sentia que não precisava mais respirar. Era como se o ar o traspassasse por completo, sendo, com ele, uma coisa só.
Mais e mais instrumentos de sopro começavam a soar; uns mais graves, outros mais agudos que o primeiro, formando uma harmonia que elevava o espírito do garoto como nenhuma experiência anterior.
Com o vento, Filipe foi conduzido para fora daquele lugar. Passando pela janela, começou a subir cada vez mais, como se tivesse sido soprado de um dente-de-leão, em direção ao céu.
Quando ele viu a luz dourada que brilhava no meio das nuvens, algo aconteceu no centro de seu ventre. Surgiu uma onda de frio e calor que, rapidamente, se espalhou por todo o seu interior. Em um segundo, ela se expandiu até não caber mais naquele corpo, e irrompeu para fora, se manifestando como uma onda de luz, vento e eletricidade sobre toda a pele de Filipe. Enquanto transformava a natureza corpórea que tocava, aquela força gerou um clarão que obrigou o rapaz a fechar os olhos.
Filipe piscou.
No refeitório, todas as pessoas que ele vira paralisadas, piscaram, também. A gente que estava na rua, olhando para o céu, toda ela, piscou.
Ninguém viu Filipe sumir. Ninguém notou de imediato que, como ele, milhões de pessoas haviam sumido.
Toda a experiência do rapaz durou menos de um segundo. Num abrir e fechar de olhos, todos encontraram o céu fechado e escuro como antes, sem que ninguém pudesse explicar.
Em outro lugar, Filipe sentia que não flutuava mais. Estava em pé.
Ainda de olhos fechados, escutava apenas um som, que não sabia se era de uma tempestade, ou se era deu um riacho. Um perfume de vinho e de frutas enchia o ambiente, que, embora parecesse se mover constantemente, era pleno de paz.
Filipe decidiu abrir os olhos. Diante dele, o Eterno.
Seus olhos, parecendo dois oceanos abundantes de cardumes de toda espécie, cortados constantemente por raios, penetravam o mais profundo do interior do rapaz. Suas vestes pareciam uma nebulosa se estendendo para todos os lados; davam a sensação de que fariam brotar flores, árvores e rios em todo o solo que tocassem. Sua pele parecia ser percorrida por relâmpagos ou atravessada por focos de luz vindos de Seu coração, cujas batidas eram o motivo de todo o ambiente se movimentar, como um organismo cheio de alegria e benignidade.
Para Filipe, a palavra “felicidade” perdeu todo o sentido diante do sublime êxtase que o invadia naquele momento. A plenitude que o preenchia era superior ao que saberia descrever.
Percebendo que o Rei esperava que ele se pronunciasse, Filipe buscou a palavra que melhor expressasse o que estava sentindo. Quando abriu a boca, para sua surpresa, sua pequena voz foi acompanhada pelo som de cordas, metais, percussão, ondas quebrando violentamente, pássaros cantando, e folhas se debatendo ao vento. Todo esse ruído, harmonioso e perfeito, era a voz do Rei. A exata palavra que Filipe escolheu, o Eterno pronunciou com ele.
Olhando nos olhos um do outro, o rapaz e seu Criador disseram a mesma frase.
– Finalmente…!
[Photo: Andrew Morrel - www.flickr.com/andrewmorrell]
